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Clash of Titans

July 26, 2010

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O que esperar de mais um blockbuster protagonizado por Sam Worthington e sua irrefutável ausência de humor ou carisma sem ainda poder contar com a qualidade imersiva dos recursos visuais tecnológicos que salvaram Avatar(2009)?

O arrebatador marketing do 3D,  integrado a fita após as filmagens encerradas em 2D, é um artifício a mais na lista de promessas não entregues por “Fúria de Titãs”(2010). Não há Titãns. Pelos menos, não os originais do monte Olimpo, aliás a assustadora criatura maligna prometida durante todo filme é emprestada da mitologia nórdica. Tampouco, Fúria. Num longa calcado e anunciado nos efeitos especiais, o uso dos óculos, a necessidade em pagar a diferença para recebê-los no início da sessão, se une ao um roteiro descalcificado na leviandade.

Como marionetes dos deuses de Hollywood, Sam Avatar é o bastardo semideus Perseu, curiosamente o único não transfigurado pelos maquiadores para o período helênico com cabelos e barba desgrenhados como Liam Neeson: um Zeus que, na condição de emburrado com a nova pretensão autônoma dos humanos, convoca para assustar os mortais seu irmão das trevas: Ralph Fiennes, como Lord Voldemort, quer dizer, Hades. Na verdade não só atores como também as criaturas e paisagens são como entidades emprestadas de “Harry Potter” e “O Escorpião Rei”.

Destaque para o crível guerreiro Draco, personificado com o charme e as, então reveladas, pernas finas do dinamarquês Mads Mikkelsen, o sisudo Le Chiffre de Casino Royale(2006), com a missão de incentivar Perseu a despeito de seu discurso teimoso. Os outros personagens apenas compõem uma dessaborida confusão polimitológica orquestrada por Louis Letterier, aquele mesmo que cinco anos após uma enxurrada de críticas negativas para o Hulk(2003) de Ang Lee, conseguiu executar um fiasco ainda pior com o re-remake de 2008, igualmente recheado de atores de linha justificando resultados vergonhosos com cachês astronômicos. Em “…Titãs“, Letterier consegue arrancar apenas bocejos durante a apoteótica evocação de Zeus para o releaseamento do Kraken: momento “ah, já tá acabando o filme”.

Vibração e curiosidade são propriedades exclusivas do trailler, apesar de não fugir a condição de compilação das cenas aproveitáveis de “Clash of Titans”, há um frenesi fugaz. A sincronia das batidas na trilha majestosa com as garras de um gigante escorpião aguilhoando contra o solo é particularmente emocionante.

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Coco Chanel & Igor Stravinsky

July 26, 2010

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O romance de Coco Chanel, com o comerciante comerciante inglês Arthur “Boy” Capel, encontra trágico fim com a morte de Boy, aquele que a levou á Paris e investiu em sua primeira grife de chapéus, num acidente de carro. Essa passagem biográfica encerra o didático “Coco Before Chanel”(2009) com Audrey Tautou, de luto, desfilando sua primeira coleção e dá partida a produção art nouveaulesca de “Coco Chanel & Igor Stravinsky”(2009).

Era 1913, o compositor russo Igor Stravinsky estreou em pleno Théâtre des Champs Elysées  seu revolucionário e polêmico espetáculo. A rejeição foi generalizada, porém uma igualmente vanguardista espectadora sentiu verve como a modernidade do balé apresentado. Sete anos mais tarde foram apresentados.

A atração foi instantânea e elétrica. Influente, Chanel decide patrocinar a produção do novo balé e hospeda Stravinsky em sua residência em Garches, juntamente com sua esposa e filhos, para que ele tivesse um ambiente que o ajudasse a compor. As visitas de Coco eram constantes e os dois iniciaram um romance majoritariamente sexual.

Coco Depois de Chanel evoca os valores franceses: a elegância, a liberdade e a insolência, que, apesar de imperativa e imperialista, Anna Mouglalis veste de forma branda. Mads Mikkelsen prende-se a austeridade do compositor russo. A forte personalidade de dois ícones artísticos do século, é decorada por interiores art-deco estilizados, sons e imagens entregues pelo título e pouco diálogo, traduzindo um dúbio vazio em questionarmos este o encontro como um capricho temporário.

O affaire é ilustrado quase avulsamente á carreira da impiedosa dona da Maison Chanel e a confecção do icônico perfume Chanel nº 5, exceto pela fútil arrogância da personagem em presentear a enferma esposa de seu amante com um frasco do perfume, fato que culminou com a saída de Catherine Stravinsky e os filhos da residência Chanel. Construção e condução que ganham ares redentores no epílogo juntamente com a própria Madeimoselle, aos 88 anos, rica e solitária em sua suíte no Ritz, em seu derradeiro suspiro.

Flammen & Citronen

July 26, 2010

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Com primorosa mise-en-scene noir e extraindo atuações firmes, disciplinada e apaixonantes, o dinamarquês Ole Christian Madsen contextualizada a História na mitificação de Flame e Citron, dupla de assassinos que participou de inúmeras operações de sabotagem e execuções de informantes numa Copenhagen invadida pelos alemães de 1943 e 44.

Em Flammen & Citronen(2008), Madsen, coautor do roteiro baseado em fatos reais da segunda Guerra Mundial, assume um thriler de espionagem estilizado e pungente ao levantar a moralidade impura e a questão/conceito do heroísmo que cerca esses dois lendários membros de Holger Danske, grupo dinamarquês de resistência aos nazistas.

Enquanto o enigmático e taciturno Citron, Mads Mikkelsen, afasta-se cada vez mais de sua muler e filha, dominado pela austeridade e idealismo. O asseado ruivinho destemido, interpretado pelo carismático Thure Lindhardt, envolve-se com uma misteriosa mulher incerto da verdadeira relação com os nazistas.

Membros do partido são expostos e assassinados denunciando a existência de um agente duplo. Informações plantadas e manipulações das ordens de execução expedidas pelo alto escalãoinflam um jogo de lealdade e princípios. A dupla segue, então, num plano autonomo de eliminar o chefe da Gestapo na Dinamarca enquanto o preço por suas cabeças está cada vez mais inflacionado.

Adams æbler (2005)

May 25, 2010

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O prolífico roteirista de Stealing Rembrandt(2003), The Duchess(2008), Brødre(2004),  Brothers(2009), do vencedor na categoria melhor curta metragem este ano The New Tenants, e supervisor do Anticristo de seu conterrâneo Lars Von Trier, Anders Thomas Jensen assumiu as câmeras no ano de 2000 e embarcou em uma saga recheada de humor mordaz, diálogos ágeis e tão surreais quanto pertinentes e situações inóspitas com personagens amorais sitiados na zona rural de sua Dinamarca.

Em Blinkende Iygter/Flickering Lights, um grupo de gângster foge com a grana de um mafioso e acaba no interior do país onde, com o passar das semanas, e vacas metralhadas no processo, o desejo de permanecer no local entra em conflito com o passado criminoso do bando. Três anos mais tarde, em De grønne slagtere/The Green Butchers, dois funcionários revoltam-se contra o patrão e tentam abrir seu próprio açougue, acidentes infortunosos coincidem com uma grande encomenda de carne e o negócio prospera.

Mads mikkelsen encerra sua participação na trilogia com “Adams æbler/ Adam’s Apples“(2005), onde  interpreta um injustificável vigário, que personifica a passagem bíblica “dar a outra face”, encarregado de supervisar detentos num programa alternativo de liberdade condicional. O recém-chegado é Adam, um skinhead hostil, confrontado desde o primeiro dia pelo diabo em sua nova missão paroquial: a de confeccionar um bolo com os vistosos frutos da macieira.

Por sua vez, o neonazista confronta o comportamento inabalavelmente otimista do padre violentamente proporcional a revelações graduais dos outros  fiéis que buscam orientação do pároco: um cleptomaníaco com histórico de estrupro, um imigrante que rouba de multinacionais e uma grávida desequilibrada.

Em “Entre o Bem e o Mal”, optando pela gratuidade da violência e abordagem explícita de temas como pedofilia, paralisia cerebral, câncer, suicídio, holocausto e negação, Anders é capaz de orquestrar com um roteiro sagaz e extremamente bem humorado, diálogos tentadores e personagens desajustados e politicamente incorretos uma fita agradabilíssima.